domingo, 25 de janeiro de 2015

O Milho

João Sem Moral estava sentado no ônibus Nietzsche171 a caminho da psicológa, preso no tráfico diário, extremamente deprimido com a sequência exagerada de vogais em seu nome, até que uma buzina soou ao longe, o que fez bagunçar sua dialética alfabética, e o sujeito se deu conta de que não se movimentava, nem na relatividade de Einstein, por eternos 37 segundos. Olha pra todos os lados e cada celular com aquele brilho azul é um gatilho para sua raiva.

Toma um gole do whisky que não tem, procura a lua que ainda há de haver e faz poesias belas que ninguém ouvirá.

Decide, em uma confabulação binária, matar o motorista, conclusão mais que lógica para que o tráfico fluísse. Saca de uma bolsa devidamente organizada pela mãe uma .45 e caminha decidido à cabine frontal. Pensa na filha, na mulher, na amante, na outra amante, na mãe, na pipoca que deixou no microondas, mira e atira. Virou levemente a cabeça para trás, preparado caso algum dos passageiros decidice viver naquele lugar. Nada. Todos muito bem zumbificados em suas existências efêmeras. Um café cairia bem agora, pensou.

Arrastou o ex-motorista para um dos bancos, tomando muito cuidado com a coluna do mesmo, pois especialistas de Harvard já apontaram que problemas na lombar virão com tudo no próximo inverno. Certos jornais semanas depois noticiariam que o morto parecia sorrir de leve, já outros diriam que estava mais pra uma gargalhada. Sentou em seu lugar e assumiu o comando.

Nem o trono dos deuses do Olimpo se comparava com a cadeira do motorista. Parado no meio do mundo, se sentiu um Xamã na tribo Babilônia.

Um outdoor com uma moça branca esquelética ao lado de um rapaz branco com abdômen espartano, ambos com as partes culturalmente proibidas tampadas, brilha em algum lugar da avenida.

Imaginou naquele mesmo cartaz
2 neandertais
com roupas de baixo da Calvin Kleins.
A rima sempre vem a calhar nos momentos cruciais.

Nunca se sentiu tão triste e tão menos arrependido. Tentando enxergar o infinito, divisa a linha entre o céu e a terra e rumina qual o sentido da vã filosofia de Horácio agora. Oh! Se pergunta para que tantos Ohs nos textos dramáticos se nunca ouviu uma pessoa sequer falando isso num momento de angústia. Será que era ele o problema, as pessoas à sua volta ou Shakespeare tinha algum problema na garganta e isso acabou pegando? Não sabia.

João observa o corpo do morto com tédio, que treme esporadicamente, com sangue saindo pela boca, os olhos fixados e vidrados no teto.

Ônibus, meio de transporte, nem se lembrava para onde se transportava. Sabia que pegava o ônibus X, descia em Y e andava até Z. Uma vida cartesiana até o esgotamento da infância. De que serviam os abtoners da polishop ou os acendedores de cigarros inteligentes agora? Os comerciais eram o novo câncer da geração XYZ.

Suspira. Entende qual a função do cigarro e se lamenta por não ter um. Lembra que a última pergunta da filha foi "Pai, vai sair?" e de ter respondido algumas palavras soltas com voz de robô, pois estava concentrado na escrita detalhada de uma mensagem para alguma fulana e tudo tinha de estar alinhado. Sem palavras repetidas, sem palavras difíceis, nada muito formal, sem erros de português, mas também nem tudo certo, erra propositadamente 2 palavras escolhidas a dedo e envia. A filha já tinha sumido.

De volta à realidade, mais buzinas tocam e não era o carrinho de pipoca que tinha chegado na sua rua oferecendo qualidade. Eram pessoas odiosas, descarregando o acúmulo de informações na buzina. Para ele, era sinfonia. Maestro daqueles que não conseguiam suportar a felicidade alheia, pessoas que passariam a vida sem sem nunca ter sentido a experiência de tirar uma vida.

Estava em êxtase até uma mosca pousar em seu ombro e tirar seu equilíbrio mental. João saca novamente a .45 e atira sem pensar no inseto, que nesse momento parecia gigante, como se o estivesse vendo através de uma lupa em uma velocidade super lenta. Discovery Channel da vida real. Consegue visualizar o trajeto do tiro: o tranco na mão, a explosão na ponta do cano, a munição cuspida que segue em linha reta, o olhar da mosca que triangula com o olhar daquele que atira e o salto insano da mesma para longe. A bala acerta de raspão sua asa, ela não sustenta o voo e cai rodopiando, ainda viva. Ela rasteja, sem fôlego, querendo e precisando escapar, enquanto João se abismava com seu ato.

Era o nascimento da tragédia. Antes que tivesse tempo de sua consciência vir à tona, dá o tiro de misericórdia na mosca, que tem seu corpo todo contemplado pelo projétil. Ele começa a chorar, mas antes que a primeira lágrima caísse, o chão vibra e o motor embaixo da mosca entra em combustão. Dá seu primeiro sorriso do dia, o último da vida, se dá conta que hoje não tinha se olhado no espelho e lembrou da pipoca no microondas.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Mostra tua face

Monstros não existem.
Mas existe uma coisa pior: 
A nossa própria cabeça, que é capaz de inventá-los.

Reticências...

Eu paro pra te olhar, de longe, inspiro a inocência do teu sorriso mudo, me delicio com o cabelo que escorre suavemente pelo pescoço. Você parece dizer coisas belas, ou é a minha mente que pinta suas rudezas com verniz de você?
Sinto um deserto sob meus pés, muros kilometricos nos separando, ao tempo que posso tocar suas mãos, sem que você perceba. Há tanto para ser dito. Na loucura desse ideal, criei um universo só seu, e nele, você é o sol e eu a terra, uma das tantas coisas que você atrai, sempre mantendo distância. Me aquece de longe, nem pergunta o porquê, infiltra minha camada, lança raios com essas duas esferas que tens no rosto. Me deixa chato, a ponto de querer criar para você a todo instante, como se com cada coisa que eu fizesse, que seja a menor das frases sem nexo ou o pior dos clichês românticos, eu pudesse alisar teu cabelo, ou receber um beijo seu.
Quero te contar alguns sonhos, mas você permanece indiferente, concretizando cada rachadura nutriente dos meus solos.
Olho para trás, no sentido de passado e distância, e vejo um buraco negro, sugando esse universo todo. Estou indo aos poucos, essa observação, talvez uma obsessão contida, está em cada pó do meu ser, que se esvai rumo à boca do buraco. Não sei quando minha nuvem vai secar, sumir ou acabar, só espero que minha última lembrança seja de um sorriso teu.
E que eu possa dizer algum dia aquelas três palavras que há séculos permeiam o universo dos humanos.
.. .. ...

sábado, 9 de agosto de 2014

Do meu hoje para o meu Brincante

Força, menino

Não deixe de brincar

Tua Criança não morreu

Só deixou de sonhar.

Bom dia, com gosto de Gabi

Um gole do teu corpo
Pra te beber gota a gota
Te fazer chover
E me lambuzar no teu gozo

Quando salivas teu suor
Nas curvas dos teus seios
Que degusta você de cor
Até ser devorado pelo meu anseio

O ar se adensa de desejo
Suspira no teu ouvido quanto te quero
Penetra teus lábios ao infinito
Te sufoca de tesão inaudito

Você, toda nua, inspira
O Michelangelo nos meus olhos
É você, toda delícia,
Que transpira pelos meus poros

Balada da SuperLua

Com um foguete propulsionado por palavras,
Posso, na tua fuga, te alcançar ?
Pousar sereno na esfera inacabada
Fincar uma bandeira bruxuleante ao amar?

Na poeira seca da terra desconhecida
Voam cabelos e perfumes
Perguntam pela sonoridade
"Qual o som da idade?"
Ramificam-se em borboletas de prazer
Que despertas ao casulo
Experimentam a inexistência

Saudades como vanguarda da necessidade
Orbita e repulsa, quieta e camuflada

Vem ter comigo
Suspensa ou propensa
Pela gravidade nossa

Atração natural das nativas carícias
A mão sobe, leve, ao ar
Querendo, criança, alcançar
A última folha
Da ponta mais finita
Da árvore mais bonita
Chora ao toque do encanto
Musgos do meu pranto

Os olhos fecham, corpo sente
E o que figura na mente?
"Fuja. Perigo. Ela conquistou.
Mas que faço? Ela apoderou.
E no coração, gravitou!"

Ser o não-ser, eis a questão

Esperando o resultado  
O envelope gritando aids 
E você gemendo dreads
O sono vinha perturbar
A cabeca relutante
Vinha ralhar,
Com a falta de relaxar
Tapete sem asa buscando
Um Aladin alado da Nigéria
Menino que o usa no auge
Melindra o ar rasgando folhas
De vento sujo calado 
A lixeira jazia vazia
Vadia, tinha serventia? 
A comparação era inevitável
Irresistível como evitar crentes no domingo
E o ressoar que procura a menina
Aquela que não pode ser pronunciada
Lamenta suas dores 
Em versos sem sentido
Quisera Caim serem esses 
Lado a lado na métrica da solidão
Uma assistida de leve à TV
Desperdício sem conta 
Para reparar o traço fino de falta de ar 
E a excessividade de des 
Ligamentos reflexos da vontade
Insistente lambuza suas gotas
De sangue, vertente 
E a alma, latente.